Férias de verão, shorts e feminismo.

anigif verão maia vox

Estação mais quente do ano. Hora de nos refrescar sim ou claro? Uma ida à praia ali, uma roupa mais leve e curta acolá. Mas pera aí! Apenas corpos perfeitos (barriga sequinha, bunda e pernas durinhas) podem se dar a esse luxo! Mesmo?

Eu nunca fui magra. Minha mãe sempre diz que quando bebê as minhas pernas eram realmente gordas – e davam vontade de apertar. Pequena, eu também gostava de fazer apresentações de dança na sala de estar ou até mesmo na frente da casa dos meus avôs. Minha tendência a engordar nunca foi problema na minha infância, rodeada de primos, afinal todos nós tínhamos algo em comum e estávamos muito mais preocupados em brincar do que qualquer outra coisa.

No entanto, fiquei mais velha e comecei a passar mais tempo com meus amigos. São todos muito legais e aprecio bastante o tempo que passamos juntos, mas quando eles davam uma surtada por gordurinhas aparecendo, sendo que a maioria deles é magra, da barriga reta, eu me sentia numa situação muito pior. Daí, a cadeira na beira da piscina era o meu lugar e eu não ousava nem mesmo expor meu corpo fora da blusa e dos shorts. Mas isso podia mudar! Se eu emagrecesse, continuasse a alisar meu cabelo e de alguma forma mirabolante minha pele clareasse T-U-D-O melhoraria! Pelo menos as propagandas repetiam a mim.

Por essas e outras, eu passei de uma criança faladeira e amostrada (*1) para uma adolescente com fala baixa e embolada. Para perceber que a causa disso vinha de fora da minha casa, demorei algum tempo. Na família muitos falavam que eu era uma menina bonita, mas isso era nada demais para mim, vindo deles. O que eu esperava era a aprovação dos de fora e, como não recebia, achava que quem estava ao meu lado dizia aquilo da boca pra fora.

Foi assim até o momento em que olhei firmemente para a minha imagem no espelho. Naquela hora pude finalmente enxergar a beleza de que tanto os que me amam diziam. Passei então a acreditar: Sim, eu sou muito bonita.  Falo isso hoje sem tanto medo de gritarem que é um jeito de me gabar. Sabe o porquê? Das inúmeras vezes na frente do nosso reflexo, são poucas aquelas em que prestamos atenção a ele. Isso, por estarmos extremamente presos às imagens do ser humano perfeito, que circulam por todo canto. Assim esquecemos de quem somos e nunca conseguimos ser felizes conosco.

Quando esse olhar distorcido muda em nossa vida, nos cuidamos primeiro pensando em nossos gostos, pra depois analisar se está na moda ou não (e se não estiver “em alta”, admiramos o que se mostra mesmo assim). Também andamos pela rua notando que cada um tem uma beleza e, por isso, viver se comparando é frustração na certa. Até que ao surgir alguém sentindo-se mal por sua imagem em nosso caminho , a língua coça pra compartilhar o que já descobrimos, torcendo pra que acreditando em si mesma, essa pessoa saiba que – aí sim! -, tudo vai melhorar.

Tirar as baboseiras da mulher perfeita de minha cabeça não foi nada fácil. Na verdade, tenha a certeza de que algumas ainda rondam meus pensamentos. Por exemplo, nessas férias de verão,  como numa montanha russa, de tranquila com a vida fiquei bastante borocoxô. Perdi alguns dias de sol, água e areia. Só depois de muito pensar, vi que  precisava relembrar o que já havia aprendido e quem dessa vez me ajudou foi o feminismo.

montagem girl power maia vox

Queen B no VMA 2014. “Feminist: the person who believes in the social, political and economic equality of the sexes. – Chimamanda N. Adichie” (*3)

Assim que me deparei com o nome “feminismo”, dois caminhos se apresentaram: um dizendo que o movimento aplica o machismo ao reverso e que por isso seus participantes devem ser chamados de feminazis e outro, em que o que se busca é nada mais nada menos do que a mesma liberdade e o mesmo respeito entre homens e mulheres. Fui atrás de leituras, conversei com gente de diferentes pensamentos, dos bem resolvidos aos em cima do muro e agora, pelo segundo caminho me apresentado, confirmei de uma vez por todas que o fato de eu ser mulher, preta e não ter corpo de modelo não diz nada sobre o quão longe eu posso chegar.

Tão importante quanto, aprendi que não adianta eu aplicar todos os lindos conceitos a mim e sair por aí criticando quem quer que seja por usar saia curta, vestir burca, ser magra, ser modelo, ter a sexualidade que for… por aí vai. Sabe, se você deseja respeito, dê isso aos outros, mas não significa que quando alguém lhe falar que um vestido curto tira isso de você, você tenha de engolir o cuspir de regras. Talvez seja complicado de compreender no início, mas, com um dia após o outro, entendemos a dosar melhor os lados.

E assim, deixei o que me colocava para baixo de lado e já não mais pretendo perder um dia sequer de praia. Também não sou mais de xingar os shorts curtos como antes. Alías, pelo o que depende de mim, esse tornou-se meu mais novo apetrecho em dias ensolarados. Agora, espero que seja assim também pra você aí: dias com mais sorrisos no rosto. Aproveita que 2015 ta aí para isso!

Beijos e até mais!

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*1 – Aqui onde eu moro, amostrada é a pessoa que gosta de se exibir.

*2 – Gif feito com essas imagens (1,2,3,4,5) por Mari Gomes.

*3 – Montagem com essas imagens (1,2) por Mari Gomes.

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Aviso: um novo visual será estreado no blog a partir do dia 15 de janeiro. Fiquem ligados!

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