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#empoderar10: Gostar de uma cantora negra não te faz menos racista!

Oi, tudo bem com você? Eu espero que sim!

Hoje finalmente chegamos ao décimo post da sessão EMPODERAR. Foram tantos assuntos já debatidos: de amor próprio a mulheres incríveis, de apropriação cultural a embraquecimento.

Confira todos os posts de EMPODERAR aqui no blog!!!

Conversaremos agora sobre a polêmica surgida a partir da paródia de Work, hit atual de Rihanna em parceria com o rapper Drake, feito por Kéfera Buckman e Gustavo Stockler, ambos youtubers brasileiros com milhares de inscritos em seus canais.

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Nesse post não me deterei às questões de desigualdade de gênero reproduzidas na paródia. Para isso recomendo o texto incrível da Carla Silva (logo abaixo). E não, eu não vou falar apenas se teve black face no vídeo. Isso porque escrevo este texto fugindo da redução aos mesmos moldes que o debate sobre racismo por conta da tal paródia foi diminuído a uma richa de paixões, de gostar ou não da Kéfera, por gente que não entende que racismo não é só chamar de macaco.

De mulher para mulher: uma conversa sobre a paródia de “Work”, da Kéfera. – Carla Silva em Portal It Pop

Antes de continuar o post, recomendo assistir a coleção de snaps em que a Kéfera tentou se defender. Clique aqui.

Black face.

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Muitas pessoas, a partir desta imagem, começaram a dizer que o Gustavo teria se pintado com maquiagem mais escura para simular a pele negra do Drake. Imagem: Instagram @gustastockler.

Uma das acusações de racismo na paródia de Work de Kéfera e Gustavo foi a de black face. Mas o que é isso? É uma prática que surgiu no século XIX nos chamados shows de menestréis, em que atores brancos pintavam-se de preto para escrachar a figura da pessoa negra. Porém black face é mais do que isso. É um estilo de entretenimento baseado em esteriótipos racistas que começou com os shows de menestréis e continuam até hoje no inconsciente coletivo.

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Foto em que Kéfera postou do antes e depois da gravação da paródia para provar que não se usou uma maquiagem mais escura. Imagem: Instagram @kefera.

Mas será essa a primeira vez que Kéfera está envolvida numa acusação de black face? Não! No carnaval de 2013, ela fez mais uma “paródia” ultrapassando todos os limites do respeito, fantasiando-se da versão brasileira do black face, a nega maluca. O vídeo hoje não se encontra mais no canal dela, mas ainda é possível assisti-lo ao clicar neste link.

Pelo depoimento dela neste último episódio dá para ver que em três anos ela finalmente decorou o significado de black face, só falta aprender a não reproduzir racismo de uma vez por todas.

Falemos então do Gustavo, afinal a Kéfera não estava sozinha nessa. Diferente dela, ele resolveu não se posicionar sobre o ocorrido, mas era o principal acusado da tal prática racista.

Mas nem foi black face! Ele é negro! Como dito antes, infelizmente o black face não se retém a figura do branco pintado de preto. Tivemos ainda o black voice, extensão do black face em programas de rádio, em que pessoas brancas reproduziam uma fala supostamente das pessoas negras com o intuito de ridicularizá-la.

Mais recentemente também, Hollywood decidiu pintar Zoe Saldana, uma atriz negra, para representar a cantora Nina Simone, cantora também negra, sucesso da década de 60 e importante ativista no Movimento dos Direitos Civis nos EUA. A diferença é que o racismo aí se manifestou com o colorismo, pois a indústria cinematográfica achou por bem escurecer com maquiagem a pele de uma atriz para interpretar um ícone da música que sofreu bastante por ter a pele retinta e se posicionar contra a segregação racial nos Estados Unidos.

Conheça quem foi Nina Simone neste post do blog: #distrair6 – 6 mulheres que mudaram o mundo da música.

Entenda o que é colorismo com o post parceiro do blog Escrevendo Sozinho.

Mas ele não é negro, é indígena! Em muitos de seus vídeos, Gustavo cita sua ascendência indígena. Ele pode até não ser obrigado a explicar como entende sua identidade racial por isso ser também questão pessoal, mas o que estou tentando explicar é que o racismo encontra sempre novas formas de se entranhar na nossa cultura.

Nessa polêmica toda, mais importante do que saber se teve black face ou não é entender que estamos num mesmo barco que afunda em preconceitos e ignorá-los não acaba com o nosso afogamento em desigualdades.

Para saber mais sobre Black Face:

Gostar de uma cantora negra não te faz menos racista!

Ela não é sua carta de defesa contra acusações de racismo. Nem suas amigas e amigos negros. Nem seus professores. Nem seus companheiros. Nem sua bisavó e seu tataravó. Muito menos os dois nomes de intelectuais negros que você gravou dentro de uma academia embraquecedora.

Clique aqui e leia sobre a Política de Embraquecimento que existiu no Brasil e os seus reflexos atualmente aqui no blog!

Conectando com a paródia, temos uma questão de apropriação cultural, aquela história de gostar da cultura negra, mas não dos negros. No caso existia uma linha tênue entre a suposta homenagem para a Rihanna e apropriação cultural, que foi quebrada e puxada para o segundo lado a partir do momento em que Kéfera respondeu de forma preconceituosa, escancarando mais uma vez o racismo dentro dela – porque não moça, querer dizer o que é sofrer racismo sendo uma pessoa branca é silenciador e opressor.

Clique aqui para ler os textos sobre Apropriação Cultural no blog!

Como diz a Karol Conká: o preconceito velado tem o mesmo efeito, mesmo estrago. Raciocínio afetado falar uma coisa e ficar do outro lado. A sociedade só não esquece que Rihanna é negra porque 1) ela é estrondosamente famosa ao redor do mundo e 2) ela transparece no trabalho o orgulho de sua identidade racial.

Recomendado: Work, work, work: Isso é Patois – por Bárbara Paes para o Ovelha Negra.

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Rihanna na premiação “Black Girls Rock” neste ano: “Mas isso é por que a noite de hoje é tão importante para mim. Porque eu penso que posso inspirar muitas mulheres jovens a serem elas mesmas, e isso é metade da batalha.” Imagem: Reprodução.

No entanto, sendo Riri poderosa do jeito que é, ainda falam “mas ela nem é tão negra assim”. Enquanto isso, nós, pessoas negras, ainda ocupamos espaços de subserviência por razões históricas. Ainda continuamos morrendo por conta delas. Deixe-me repetir: M-O-R-R-E-N-D-O.

O tal do vitimismo e o mimimi.

Na sua defesa por via do aplicativo Snapchat, Kéfera disse:

“…tiveram algumas pessoas, na sua maioria negras, que disseram se sentir ofendidas com a paródia…não entendi quem se sentiu ofendido…” (no segundo link que coloquei aqui, a fala começa no minuto 1:40 e vai até o 2:00).

Um outro desfavor também foi feito pelo youtuber Felipe Neto ao dar sua opinião sobre a polêmica com a paródia de Work. Ele, que achou ruim quando a Lupita Nyong’o foi eleita a mulher mais bonita do mundo pela Revista People. O mesmo que fez um vídeo com uma mulher negra para não se dizer racista, disse:

“…embora eu ache que não tem nada de errado se o Gusta tivesse se pintado de preto para fazer um personagem, visto que era importante para o clipe e não estaria interpretando um escravo, ele não fez isso. O chilique é completamente equivocado. E aí vem o que me irrita, que é o argumento que diz que se uma minoria disse que sofreu preconceito você não pode discordar dela”. Neste link, do minuto 1:26 até o 1:51.

Pessoas, não é porque se gravou o significado de black face ou se tem uma conhecida negra que você é menos racista! Não diga para um grupo oprimido o que é sofrer a opressão e esperar que fiquemos todos calados!

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“Essa foi a coisa mais estúpida que já ouvi.” Imagem: Reprodução.

Racismo não é só xingamento! Racismo é sobre poder! Não é só uma vez na vida que sofremos! E ainda que fosse, ninguém merece ter sua humanidade duvidada uma vez sequer, mas não, é todo santo dia! É quando o fiscal da loja nos persegue. Quando pensam que sempre somos a empregada ou o porteiro. É quando fazem chiado pelas cotas raciais. Quando nos negam atendimento médico. É quando nos deixam morrer e os culpados não são julgados por serem brancos. Superar toda essa porcaria não é fácil! Nem todos nós conseguimos! Então repito, não venha dizer o que é ser oprimido quando você é o opressor, querendo ou não.

Não venha diminuir a luta!

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Ocupada demais com a coroa para se importar com a estupidez alheia. Imagem: Reprodução.

Essa mania de não entender o todo, reduzir o debate a maniqueísmos é o que perpetua toda e qualquer forma de preconceito. Nesse contexto, ninguém se mostra disposto a reconhecer suas atitudes errôneas, ainda mais quando são chamadas de racistas, e por fim acabam se defendendo de uma forma mais preconceituosa ainda.

Embora as intenções possam ser as melhores possíveis, ações superam intenções. Por isso entender nossa posição na sociedade, reconhecer nossos privilégios é fundamental para sabermos o nosso lugar de escuta e nosso lugar de fala.

“Nossa, mas é irônico ficar falando desses youtubers, porque assim o Ibope aumenta e eles ganham mais dinheiro.” Podem continuar ganhando o dinheiro que for, mas carreiras erguidas em racismo não mais passarão. Vamos fazer muito mais barulho, porque como diz a maravilhosa da Inês Brasil: se me atacar, eu vou atacar.tumblr_o1q48f9c1a1v5u1pwo1_500.png

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#celebrar8: Amandla Stenberg – poder até no nome!

Oi, tudo bem com você? Espero que sim! 😉

Finalmente é sexta-feira! E isso significa celebrar pessoas incríveis aqui no blog! Para começarmos esse mês de Abril bastante inspirados hoje vamos conhecer a Amandla Stenberg!

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Imagem: Instagram @AmandlaStenberg.

Poderosa desde o nome, que significa “poder” em Zulu,  e conhecida principalmente pela sua atuação no filme Jogos Vorazes (2014) como Rue, Amandla Stenberg vêm chamando a atenção do mundo pela quantidade de projetos que desenvolve e dos seus depoimentos empoderadores. Continuar lendo

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#empoderar9: Significado dos turbantes e mais umas verdades sobre apropriação cultural!

Oi, tudo bem com você? Espero que sim!

Ontem eu assisti a uma palestra maravilhosa e transformadora sobre feminismo negro, produzida pelo Desabafo Social, o Escambo de Ideias #3. Na discussão falou-se sobre estratégias de luta contra o sexismo e o racismo. Uma das palestrantes era a Joice Berth, arquiteta e militante do movimento negro, e no meio da conversa ela estabeleceu a diferença entre fortalecimento e empoderamento. Segundo ela fortalecimento está ligado à estética, a abraçar suas raízes, como por exemplo, abandonar os alisamentos e usar os cabelos crespos e cacheados naturalmente. Já empoderamento é ter conhecimento sobre sua ancestralidade e da estrutura do sistema racista e através desse saber, construir defesas contra as opressões que lhe acometem. Se você não conferiu ontem, confira neste link aqui. Vale muito à pena!

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“Nem sempre quem está fortalecido está empoderado.” Com isso em mente, hoje então é dia de entender o significado dos turbantes para a cultura afro-brasileira. Além disso, vim discutir mais uma vez apropriação cultural, porque enquanto fazia as pesquisas para esse post, lendo outros textos, muitos comentários referentes a eles eram justificativas esfarrapadas sobre utilização de materiais de outros povos e culturas. E não, não podemos viver cheios de disse-me-disse!

Leia aqui os textos no blog sobre “Transição Capilar”!

Sobre turbantes!

Os turbantes são elementos que caminham por vários povos, de norte a sul, de leste a oeste. Persas, árabes, indianos e africanos são alguns deles. Também conhecido como Ojá na África Negra, sendo utilizado em instrumentos musicais, roupas e até mesmo para as mães carregarem suas crianças, ele desempenha papéis de classificação social, religião e vestuário. 

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Imagem: Reprodução.

Aqui no Brasil, influenciado pela cultura africana, o turbante é uma das inúmeras peças que compõem as baianas, figura típica do nosso país que remetem às mucamas na época da escravidão, mas que também participam das religiões afro-brasileiras, como o candomblé. E por falar nas religiões nascidas aqui, a umbanda e o xangô também incorporaram o turbante.

Com o crescimento do movimento negro na década de 60 nos Estados Unidos, os turbantes, assim como outros elementos da cultura africana, foram colocados como símbolo de resistência à segregação racial que o país enfrentava. Hoje, um movimento que lá clama pela mesma ideia é o Afropunk, que envolve música, transgressão e identidade. 

Conheça o movimento AfroPunk neste post do blog!

Aqui no Brasil, o movimento negro também trouxe esse ideal de identificação com o continente africano por meio da estética. No presente, a internet tem sido um grande divulgador desses elementos, tendo a aceitação do cabelo como maior ponto de partida e os turbantes como ato de afirmação identitária.

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Alguns trajes maravilhosos do no festival de música do AfroPunk.

Entretanto, assim como aconteceu na década de 20 e 30, com estilistas como Paul Poiret e Coco Chanel, a indústria de moda atual encontrou nos turbantes uma fonte de consumo e através de sua produção em massa, os significados, sobretudo os de influência africana, estão sendo distorcidos, causando o que conhecemos como Apropriação Cultural. Continuar lendo

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#empoderar5: Criando seu próprio “Hall da Representatividade”!

Oi, tudo bem com você? Espero que sim! 😉

Estava eu nesses dias pensando sobre a transição capilar. Não tem jeito, vou sempre falar dela aqui. Foi com ela que comecei a me sentir confortável na minha própria pele, a entender o racismo, a conhecer mais gente como eu e a criar o meu próprio hall de representatividade (uma referência a “hall da fama”). É sobre este último que vim hoje conversar com vocês.

Confira aqui todos os post sobre transição capilar no blog!

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“Representatividade importa!” Imagem: Reprodução.

Já é mais batido que massa de pão que personagens negros nos conteúdos infantis ou modelos negras em revistas são raridade. Não é novidade que papéis de subserviência é o jeito que a grande mídia encontrou para “incluir” homens e mulheres negros. Também já se sabe que isso afeta a autoestima de pessoas negras, no seu desenvolvimento, pois a representatividade que nos chega é geralmente negativa. Continuar lendo

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#empoderar1: Baile da Vogue 2016, Kylie Jenner, Amandla Stenberg e Apropriação Cultural.

Oooi, gente! Tudo bem com vocês? Espero que sim!

Vocês devem tá se perguntando o que o baile da Vogue 2016 tem a ver com a Kylie Jenner, mais nova das irmãs Jenner-Kardashian, e com a Amandla Stenberg, intérprete de Rue de Jogos Vorazes, né verdade? E a resposta é “Apropriação Cultural”!

Desde já esclareço que esse texto não tem como intenção esgotar as discussões sobre o assunto. Ele também contém as minhas opiniões já que isso é um blog pessoal, mas sintam-se mais que convidados em colocar a de vocês nos comentários. Debates são mais que bem vindos!

Para quem não sabe, o tema escolhido pela Vogue para a festa desse ano foi #PopAfrica, uma tentativa de homenagear o continente africano reduzida a muitos estereótipos racistas. Já a Kylie Jenner, do clã das Kardashians, usou no meio do ano passado um penteado comum nas comunidades afroamericanas que são as tranças rasteiras – ou como dizem nos States, cornrows. Porém, a atriz Amandla Stenberg, intérprete da Rue em Jogos Vorazes (a personagem que morreu nos braços da Katniss, para quem não lembra) mandou a seguinte “indireta” para a Kylie no Instagram dela: “Quando você se apropria de características e da cultura negra, mas falha em usar sua posição de poder para ajudar negros americanos, direcionando atenção em torno do seu penteado ao invés da violência policial ou o racismo”.

E então surge a pergunta: qual o limite entre homenagem e apropriação?

Antes de qualquer coisa, você sabe o que é apropriação cultural? A Nátaly, estudante de Ciências Sociais e blogueira do Afros e Afins, dá uma explicação ótima no vídeo a seguir, mas adiantando, apropriar-se culturalmente é partir de uma estrutura dominante para usar características de culturais alheias – e marginalizadassem respeitar o significado que aquilo tem para o outro. De consequência, o dominante é visto como estiloso e culto, enquanto a comunidade que representa tal cultura continua sendo debochada. Continuar lendo